5 de maio de 2008

Sobre amigos, flores e afinidades.


Meu bom amigo Chico mora numa cidade distante. Não a conheço. Sei que fica perto de uma outra localidade que tem um nome interessante – Feliz, ou Sorriso, não lembro direito. Imaginem vocês o que seria ou deve ser residir num lugar chamado FELIZ ou SORRISO? Eu moro em São José. Que graça tem isso? Cidades deviam ter nomes mais significativos ou menos religiosos, sei lá, mas isso também não vem ao caso, ou melhor à crônica. Volto ao Chico: também jamais o vi, a não ser por aqui, pela Internet – nessa máquina maravilhosa e maldita chamada computador. Porém o meu amigo – e sei que posso chamá-lo assim por tudo o que já sentimos de comuns acordos por aqui mesmo, via tela fria – é um tipo de homem misterioso, e grande por causa disso. E A D O R A sementear. Assim mesmo, desse jeito, ao pé da letra (se é que letra tem pé, ou cabeça – hoje dei para as reflexões ínfimas): sementear. E isso vai por tudo. Tem uma loja que vende sementes mas jamais se contentou só com elas. Além de vendê-las e plantá-las, germina no meu amigo a ânsia de ver florescer nos homens a imensa magia da semente de palavra. Chico, o meu amigo, escreve poesias. Imagina cenas que os homens do hoje já não conseguem ver mais, pois não possuem tempo para apreciar. Imagina sim, mas também somente esse solo não lhe é suficientemente fértil. Então fotografa, eterniza e, junto com sementes, (Amor-agarradinho, manjericão e cosmos – uma amarela bonita!) certa vez, enviou-me alguns frutos de suas colheitas – fotografias, poesias e uma caixinha pequenina cheia de sementinhas, cada qual com seu bilhetinho minúsculo explicando o quando, como e onde plantar.
Chico é o cara mais intenso que eu (Não) conheci (?) Não??? Só porque jamais nos vimos, porque nunca trocamos um abraço, porque a distância sempre se colocou entre nós? Mudo a frase imediatamente. Chico é o meu grande amigo pois o abraço afetuosamente a cada vez que aparece no orkut, no blog, num e-mail rapidinho. Ele é, talvez, até mais que meu amigo: um irmão de alma, coisa rara de se encontrar nesse mundão de meu Deus. E se chama Chico. Um nome também sem pompa, tanto quanto é o meu. Se não tivesse sobrenome ainda assim nada me faltaria para que ele fosse o meu amigo porque esses seres tão raros de se encontrar não necessitam ter muito mas sim, ser algo a mais.
Eu poderia ficar horas escrevendo sobre ele, mas de repente, lembrei de uma frase do Manoel de Barros, um poeta que amo demais, nascido à beira do rio Cuiabá e que reside hoje em Campo Grande (M.S) : “Tem mais presença em mim o que me falta”. Ou outra, dele também e essa serve como homenagem ao meu amigo-poeta-fotógrafo-irmão de alma, o Chico: “Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou”.
Quanto aos leitores, sei que também possuem amigos assim. Gente de verdade que nos ouve mais e nos diz muito, mesmo que seja de longe. Pessoa presente através de palavras que vêm pela tela, gente com quem conversamos sem jamais termos olhado em seus olhos, seres que jamais nos viram, porém, com certeza, sentiram o coração da gente disparar, o toque na mão suada, emocionada, diante da leitura de palavras das quais precisávamos tanto naquele exato momento. Sim, existe amizade sem toque e a Internet foi capaz de produzir cenas assim e essas coisas todas têm dimensões muito importantes. Moscas, passarinhos, flores, fotografias, palavras e pessoas, a inquietude e a infinitude diante da vida, tudo isso eu vi e vejo sempre quando lembro do meu amigo.
Um dia, quem sabe? , eu passe perto daquela cidade de nome bonito – Feliz? Sorriso? , entre na loja e pergunte ao vendedor: tem por aqui um plantador de sonhos e semeador de palavras chamado Chico?
E então, pela primeira vez entre nós, as palavras serão dispensadas.

P.S – O amor-agarradinho pegou! Aguardo os caramanchões para a primavera.

6 comentários:

Elaine disse...

Sou uma verdadeira fã de crônicas, obviamente bem escritas, criativas, que acresente; logo, posso garantir-lhe que ganhaste uma fiel admiradora, Lili... ADOREI!! Bjosss

Chico Steffanello disse...

Enquanto vivermos confinados no nosso limitado veículo corpóreo precisamos achar meios artificiais de expressar a nossa verdadeira essência que é vibratória: quantas coisas que pensamos não tocar, entretanto, é somente a nossa falta de capacidade de ir além do nosso cárcere que nos ilude com distâncias, então, internet serve assim como um pedaço de pedra lascada serviu de instrumento de corte nos primórdios do nosso corpo...

Misterioso? O que pode ter um homem de misterioso se desde sempre não há mistério nenhum a não ser os que o nosso próprio limite os cria? Às vezes, vou abrindo os meus olhos e vendo cada coisa, então, os meus mistérios vão sumindo como pássaros de neblina contra um céu imensamente azul...

Serão as mulheres semelhantes às Rosas que algumas delas tem disso até no nome?

Obrigado, minha amiga querida, pelas tão doces lembranças...

Bj.

Milena Gouvêa disse...

Lili,
Cada vez que leio tuas palavras, me apaixono mais por elas. Estou sempre passando por aqui e conferindo o que esse coração doce tem pra dizer. Adorei saber do Chico e sempre me conforta, de alguma forma, saber que existem pessoas tão sensíveis e capazes de nos influenciar de maneira tão boa. Fique sabendo que você também é uma semeadora, e das boas. As suas palavras, por exemplo, estão sempre florescendo em mim também.

Rosana disse...

Oi linda mana...

Linda como sempre!

Muitos beijos
Lindo dia!

Maria Luiza Ramos disse...

Taí, gostei! Da crõnica, do Chico (a "orelha" do meu livro foi feita por um Chicão!), da brincadeira com as palavras. Muito boa mesmo!
Não sei nem como encontras tempo para conviver com tantas palavras!
Beijo grande da tua "alma gêmea" (juro que não somos lésbicas!).

Bruna Pires disse...

Passei para me desculpar por não ter passado por aqui. hahaha.

É, complexo porém com um fundo de felicidade: Estou trabalhando muito.

Te conto tudo outra hora.

Um beijo no coração, bom final de semana, saudades eternas das suas aulas maravilhosas.

PAZ!