11 de agosto de 2010

Saudade





“O próximo instante é feito por mim? Ou se faz sozinho?

(Clarice Lispector)

Nada como parar para refletir em momentos de agonia suprema, neste inverno. Grave ironia! Parar para pensar já é algo inusitado, afinal, pensamos o tempo todo. Em tudo, só não nos damos conta. Lembranças, ideias, inovações do espírito, loucuras da alma, trivialidades estão sempre conosco. Nós é que não damos oportunidades para que venham à luz o tempo inteiro, até porque nosso tempo é sempre uma metade – metade sou gente comum que trabalha, luta, corre e tenta vencer o cansaço. Outra metade, subjetividade, afetos, recordações, vontades não consentidas, mistérios.
E a vida, Senhor dos mundos? “E a vida o que é, diga lá, meu irmão!” Pergunta sem resposta, Gonzaguinha!
Assim também pensar no que se foi nem sempre nos dá respostas. Muito mais indagações, porém é necessário prosseguir. Há caminhos, escolhas, muitas mortes entre elas, mas vamos parar tudo e enfiar a cara no travesseiro, entrar na concha e fingir-se de morto? Não dá. Há muito mais à nossa volta nos chamando a agir do que a estagnar-se. Por mais que estejamos meio mortos por dentro, sempre haverá quem precise do nosso contentamento exterior.
O passado, nossas dores, os amores que se foram, por exemplo, nos constituem, fazem-nos. Amar é tornar-se, ultrapassar-se e saber-se vivo, ainda que este amor tenha ficado na lembrança, numa saudade dolorida, silenciosa e secreta. Quem amou, viveu. Quem perdeu ou deixou perder-se, sofre, mas leva consigo a chama de uma vela acesa – a luz intensa daquilo que experienciou. Somos lembrança constante e isso é vida também!
Guardo a lembrança de um amor bonito e é esse amor que me chama agora à escrita dessas linhas. Foi vivido e vívido, sonhado e realizado, subjetivo e concreto. Fez-se em histórias, mimos, aconchegos. Multiplicou-se em afetos, como flores coloridas num canteiro interior. Houve espinhos também? Sim. Não seria tão perfeito se os empecilhos não surgissem. Se não sabem, disso também é feita a vida – de pedras e de pétalas no caminho.
O meu amor é o que guardo dele com a pureza de minha alma e não posso acusar a vida porque não houve o tal “felizes para sempre”. Vou xingar o destino e desistir do que há por vir? E alguém aí sabe me dizer qual é o futuro e o que ele nos trará? Indagações apenas...
O que me move hoje, talvez seja o frio, este inverno, as recordações e um cansaço natural de pensar em tantas (im) possibilidades. Aliadas à sensibilidade, as palavras chegaram. Sim, elas nos pegam de surpresa às vezes, nos tocam, ferem, rodopiam à nossa volta, pedem passagem e dominam, tanto quanto encantam e acalentam. Hoje sou apenas saudade, essa palavra bonita que dói. Eu não queria pensar nela, nem em nada. Queria apenas adormecer, mas aquela vela acesa está aqui, bem aqui, dentro de mim e eu não consigo parar de olhar para ela, ainda que somente eu a perceba.

4 comentários:

Anaize disse...

Ah, que lindo que ficou, ex-prof! Adorei a combinação de palavras e tudo mais... E que saudades das tuas aulas :(

Tatiana Russo de Campos - Escritora e Artista Plástica disse...

Roseli, estás melhor. E melhor na prosa. De minha parte, Tatiana ipsi, ela mesma, entendo esta saudade ora doída, ora das (im)possibilidades. Eu também não queria pensar. Por ora, prefiro ler. Estudar. Lecionar. Estou na conchinha de mim. Estamos juntas no mesmo barco, minha amiga, mas a maré sempre muda.
Te amo.
Tua amiga, Tati

Luana Ribeiro disse...

A combinação do texto ficou perfeita! Muito bom!
Beijos

Laís disse...

Parar para pensar... Há quanto tempo não o faço! O pensamento dói e talvez mais ainda do que as palavras. É dolorido, mas é o que nos torna humanos - e quanto mais sofremos, mais humanos tornamo-nos.

Que essa chama não se apague, para que possamos desfrutar outras vezes mais de textos como esse! Parabéns, Roseli!