22 de junho de 2008

Das fomes e vontades da vida.

Eu quero, Eu posso, Eu devo. Estava escrito sempre com um jeito bonito, de uma forma diferente no quarto do meu irmão mais velho. Atrás de porta, na cabeceira da cama de cima do beliche, em todos os seus cadernos.
Não sei se algum dia disse que nasci numa casa de muitos irmãos. Éramos em sete, mais pai e mãe. Um tempo difícil. Máquina de lavar? Computador? Sanduicheira? Máquina de fazer pão? Quem dera... Um forno feito de cimento na rua aonde se assavam mais de dez pães, duas vezes por semana para alimentar tantas bocas com fome de vida, de crescimento, mudanças. Sonhos? Nada doces e sem recheio algum. Eram perspectivas apenas e sobre os quais mal se discutia. Não havia tempo. Havia sim é que se trabalhar, ajudar e cada um fazer sua parte, o que incluía os meninos lavando louça, limpando chão sem esse papinho tosco de “vai virar mocinha”. Passados os anos eu diria que nos virávamos em muito menos tempo que os trinta do programa do domingo, por sinal tão chato e batido que nem vale a pena prosseguir.
Domingos bons eram aqueles: de maionese na mesa, carne assada de panela e arroz novo, tudo saindo fumaça para dar ao dia santo a cara familiar. Depois disso vinha a sobremesa que o pai chamava de “coisa boa”. Hoje, só conseguimos horas assim com muita programação – um mora aqui, outro acolá. A esposa de um não pode, a segunda do outro prefere outras coisas, os sobrinhos se dispersam. Ah, essa vida moderna... perdemos de sorrir e de celebrar o estar juntos, coisa a qual nem dávamos muito valor naqueles tempos distantes em horas, presentes aqui, no coração. O que acaba acontecendo? Todos se vêem mesmo é nos velórios . Mas, graças a Deus, acorrem poucos.
Nesses momentos nostálgicos é que me voltam os cadernos e livros do meu irmão e sua tarefa de querer mais da vida. Era assim: O EU bem grande, uma chave com a ponta voltada para ele e o Quero, Posso e Devo dentro dela. Eu, pequenina e magricela, olhava e nada compreendia. Foi minha mãe quem me explicou: “é uma tática dele para conseguir o que quer. Ele quer, então ele pode e, além disso, é seu dever fazê-lo.”
Eu devia ter uns dez anos e era no quarto dele que eu mais gostava de entrar. Estudioso, via seu livros. Neles, os carimbos de bibliotecas. Ele, o meu irmão, além de sabido, queria, podia , devia. A vida lhe ensinou bem cedo que para se conseguir é necessário pensar positivo. Parece chavão, certo? Mais um clichê, dirão meus alunos, porém, como era sério para ele e ainda o é para muitos, inclusive para mim, que aprendi a lição.
Vai longe o tempo das “coisas boas” na mesa e de termos o pai e a mãe ali conosco, todos juntos, pertinho sem que déssemos valor. Eu cresci, tu cresceste, ele cresceu. Nosso pai se foi e a mãe está tão pequenininha que a gente até já acredita que as pessoas encolhem. (ela era tão grandona quando eu era criança...). Meu irmão mais velho é hoje um cinqüentão super-hiper-mega saudável. Continua sabido, ou melhor, é um sábio que sempre tem boas palavras para dizer de um jeito manso, para não ofender. É, na verdade o que sempre foi: um estrategista. Me orgulho dele. Dos outros também, é claro e não posso mentir que também sinto isso com referências a mim.
Vocês podem até pensar que no final tudo dá certo – mentira! - e que essa crônica tem fins de auto-ajuda. Que nada! É so uma reflexão até um pouco boba de uma mulher que, no meio da noite, reflete e recorda. Para dar certo mesmo, tem que se viver dia após dia, cada dor, cada sorriso, cada dúvida, cada queda, cada lágrima. Para dar certo é preciso suportar larvas e se propor a conhecer borboletas, para dar certo é preciso querer, poder, dever e no final ainda sentar e pensar: será que de fato cheguei? Será que de fato sou alguém? É tão fácil as pessoas pensarem a vida como um final de novela em que tudo o que acontecer será bom. Para saber da vida é preciso navegar nela, embarcar nela e estar disposto a jamais descer. Os abismos existem. Isso é verdade mas, para estar aqui há que se pensar também que fizemos por merecer.
É meu desejo que todos compartilhem a delícia de poder e saber viver cada dia. Sem pieguice de dizer” como se fosse o último”. Ninguém pensa nisso num mundo corrido como o nosso. Mas, sem correrias ou com elas, que as pessoas sempre lembrem que somos a história. Sim, nós somos a história. Somente que já passou dos quarenta talvez consiga entender minhas palavras noturnas e se as escrevo agora é porque acredito que um dia todos os meus leitores chegarão à idade mais madura e talvez essas colocações possam servir a mais gente.
Querer, poder e dever. Quero, posso, devo. EU.
E você, vem comigo?

4 comentários:

Uma vestibulanda. disse...

Eu vou!!! ehehhehe
Me fez lembrar de algo triste - M.J.G.
Como sempre, adorei o que você escreveu (adoro tudo o que você escreve!).

Beijão, Rose!
Até amanhã!

Karolina disse...

Poisé... nos faz refletir sobre várias coisas.
Já devo ter dito isso, mas o que você escreve me inspira muito!
Beijos!

Anaize disse...

Como sempre, né, proof, seu texto ficou demaais! Adoorei ele, fala bem a real, gostei do que fala sobre amor também. E bom, pode ser que essas colocações não sirvam só para quanto tivermos mais idade, mas também pra agora, já que nos fazem refletir bastantee (pelo menos eu refleti)! Beijos, prof, te adoro!

Tatiane Azzi disse...

Não sei oq aconteceu no orkut q teu recado sobre o blog só apareceu hj.... justo hj q estou em uma janela de final de semestre, louca estudando pras últimas provas para terminar bem o semestre e partir para o quarto!!!!
e ali estava teu texto.... até a tão louvada intertextualidade... (hihih cursinho faz diferença.... hihihihi)

sorte e dedicação...
bjosss
Tati
"eu posso, quero, devo!!"