21 de fevereiro de 2011

Quando tu vivias...


“A busca da verdade torna-nos castigadores.”
Inês Pedrosa

Quando é mesmo que alguém morre, quando colocamos terra sobre seu caixão depois de velarmos a noite inteira e chorarmos o que numa vida toda não se chorou? Às vezes não.
Nem sempre é preciso morrer para estar morto. Morre para nós quem nos trai, quem mente e até quem fala verdades demais. Morre quem ofende nossas emoções, quem se afasta propositalmente, quem passa e finge não ver, quem cospe no chão ao reencontrar, quem envia recados a outros turvando nossa imagem. Morre quem opta por atitudes vis e morre mais ainda, quando celebra sua suposta vitória aos quatro ventos.
E, assim, dessa forma trágica, infelizmente, vimos muitos dos que amamos ou amávamos morrerem para nós. Tornam-se fantasmas vagando pela cidade, corpos flutuantes que podemos encontrar em barzinhos, na rua, pelas calçadas. Esse tipo de fantasma nos causa repulsa, não medo, nos faz sentir pena, não nojo. Estão mortos até para eles mesmos e não sabem. Pobres coitados.
Este texto não tem por objetivo falar dos que morrem à nossa volta de uma mortezinha boba, pequenina. Fala e diz dos que nos decepcionam e se deixam morrer carregando junto ao féretro pedaços bons de nós que não foram vistos e, sobretudo, diz daqueles cuja soberba é tão grande que se matam envenenados com o própria saliva, uma vez que de humildade, nada possuem e desaprenderam a reconhecer que, enquanto vivos para nós, eram tratados como as mais especiais pessoas de nossa vida e isso inclui amigos, amantes, parentes e até filhos. Basta que sejamos gente ao menos por um tempo.
Inês Pedrosa em seu belo romance “Fazes-me Falta”, diz a certo momento que “ninguém nos diz como é que se sobrevive ao murchar de um sentimento que não murcha.” Morremos todos diversas vezes em vida, até que se possa atingir a classe de escrever em vez de somente sofrer. Então se transcrevem as palavras duras como a por em tinta o que vai no fundo da alma. Passamos para o papel aquela frase dolorida que ouvimos para matarmos, não as palavras, mas a dor e a enterrá-la junto com quem a pronunciou. É de Florbela a ideia: oh, doloroso mal de ser sozinha e de ter tantas almas a sorrir e a chorar dentro da minha. Essa multiplicidade de almas é coisa de poeta, dirias, tão banal.
Hoje eu choro a tua morte, queridíssimo e a minha também. Tu que morreste antes de envelhecer em mim, tu que te mataste pela via da palavra, tu que te traíste e me feriste ao dizer que o mal que te fiz foi muito maior do que todo o bem que te possa ter feito. Parar de viver e morrer não são a mesma coisa. O mundo não recua, apenas avança. Se é certo que “nada passa e nada fica, é apenas a ilusão do tempo”, que claro fique: isso não é um ensaio sobre as fragilidades da vida, mas sim um rompante de força em que me jogo para dizer que enquanto tu morres, eu prosseguirei lutando para viver. Enquanto tu vivias, podias sempre voltar e respingar tuas verdades absolutas, no entanto não viveste o suficiente para compreender. Ainda não aprendemos tudo. Ainda morreremos mil vezes até o gran finale. Por ora, neste ínfimo espaço de inexistência, tragam as flores em meu nome. Que a terra te seja leve.

17 de novembro de 2010

Infinitas significações.



"Deus de vez em quando me castiga. Me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra."[Adélia Prado]


Muitas vezes, no universo veloz em que vivemos, os olhos nos traem. Em quantos momentos, de fato, paramos para ver, admirar, contemplar, atentar ao que a visão nos mostra? Nem sempre ultrapassamos as linhas do superficial. Afinal, o que é olhar e o que é ver?
O lugar comum nos relata que “as aparências enganam”. Nesse sentido, estar diante da novidade, a princípio, nos faz tomar posicionamentos que poderiam ser modificados caso prestássemos maior atenção. O olhar é vago, impreciso e não nos oferece uma total impressão, uma vez que é presença de primeiro momento.
O perigo pode residir aí. Em relacionamentos instantâneos, por exemplo, quando rapidamente olhamos – a cor da pele, o modo de vestir-se ou comportar-se do outro pode nos causar aversões que culminam em julgamentos muitas vezes precipitados, o que seria facilmente solucionado se parássemos para ver.
É o ver que nos oferece a possível diferença. Ver é olhar profundamente, estar mais atento ou disposto a compreender muito mais do que entender. Ver é parar para admirar e tentar conhecer, não julgar ou condenar, mas sim, tentar perceber.
Todos são verbos de infinitas significações. Cabe somente a nós saber e querer conhecer suas sutilezas para viver bem sem cometer injustiças. Sobretudo, amar aos que estão à nossa volta sem o véu do preconceito que tantas vezes nos cega e, nessa condição, seremos sujeitos alienados que nada vêem por não sabermos a importância ou a diferença – sutil – entre olhar e ver.

Texto produzido em sala de aula, junto com os alunos, após propor o tema a eles, mediante a leitura da crônica de Rubem Alves “A complicada arte de ver.”

10 de novembro de 2010



O passado embrulhado para presente

“Não sei se não ter
é melhor que ter e perder,
ou perder
é o ter que resolveu viajar.”


Chicão

Minha amiga me escreveu contando que recebera, pelo seu aniversário, um poema de presente. Diz – e percebe-se a emoção e alegria em suas linhas virtuais – que esse amigo talvez arrastasse uma asinha para ela, na juventude. Ela, prestes a completar 58 anos, recebeu de presente um poema mais que de amor que falava do passado e que começava assim:

“Não sei se ainda
somos a mesma essência,
ou apenas reticências
de um período quase sem verbo de ligação.
Não sei se quase-sessenta
É também quase sensato,
ou apenas um inócuo passado
do quase-acontecimento.(...)”


É. Uma asinha, um bonde, um metrô inteiro, talvez, ou quase. O fato é que o tempo não apagou aquele sentimento que, certamente, nutria por ela e que, mesmo sem ser correspondido, permanece ainda entre os dois. Mesmo que apenas um ame, a união se faz. Um coração que bate por outro e o declara, toca no outro. É por isso que passados os anos ouvimos nossas mães ou avós comentarem ao verem e reconhecerem num Sr distinto na rua a figura de um amor do passado: “aquele ali queria me namorar quando eu era jovem.” Fica a lembrança.

Nem sempre as mulheres se casaram com os homens que mais as amaram e também não é regra que tenham se unido aos que mais tocaram seus corações. A vida exige decisões, escolhas, caminhos a serem seguidos e neles, muitas vezes, perde-se algumas pessoas para se poder ganhar outras. Um amor aqui, um namorico ali, um envolvimento de outro lado, aquela paixão arrebatadora lacrada naquele caderno, o álbum de fotografias escondido no cofre, tudo amarelecido, cheirando a passado e tempo. Mas disso também vivemos e revivemos - aconteça a quem acontecer, nossas amigas, as mães delas e nossas ou nós mesmas: do que foi vivido ou sonhado, nutrido, acalentado, somado, diminuído, esgotado ou esquecido. Tudo foi vida que o tempo se encarregou de não deteriorar pois de essência foi fabricada.

Os amores antigos de tempos em tempos voltam, revoam à nossa volta como a pedir alento ou um bocadinho de passado que os console, consolando, assim, a nós mesmas também. O amigo de minha amiga, assim, nesse aniversário resolveu aparecer para deixar a ela suas palavras, segundo ele, feitas “agora, neste instante”. Ah, o agora, os instantes, componentes máximos do que somos sem que sequer, no passado, julgássemos poder ser porque somente o tempo nos dá mais dúvidas para que nos tornemos mais sábios, mais dores para que aprendamos a melhor caminhar, mais desafios para que procuremos maiores esperanças, mais lembranças para que possamos ainda sonhar e mais, muito mais obstáculos para que possamos provar nossa coragem de prosseguir e continuar vivendo.

Roseli Broering

16 de agosto de 2010

“Velhos tempos, belos dias”




“A mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores e o mesmo jardim...” Sim, a música é antiga. Se fossem pesquisar, veriam que é da década de setenta, do século XX (Eu acho...). Deus, como parece distante. Nossa Senhora, como está pertinho agora, diante de mim. 31 anos. Neste ano faz trinta e um anos que fui ao show do Ronie Von, no ginásio do SESC – lotadasso de adolescentes como eu, gritando histéricas pelo ídolo. Eu não estava assim excitada. Mal falava diante de tantas surpresas. Lembro que só olhava. E ouvia. Atentava para tentar compreender o que ocorria ali. Ele usava uma camisa de cetim branca, um cravo vermelho na lapela do paletó que tirou ante os gritos da galera. Momento mágico foi aquele. Mágico porque eu estava lá e nem sabia que estaria. Minhas amigas, com mais posse, compraram ingressos com antecedência enquanto o meu chegou às minhas mãos uma hora antes, pelas mãos de meu irmão, que os ganhara e resolveu levar a mim, já que o pai da namorada não permitira. Sorte a minha.
Nem vi minhas amigas. Elas foram mais cedo, pegaram os melhores lugares. Eu fiquei bem longe mas para mim era indiferente: eu estava ali, ouvia aquele barulho forte, que mexia com meus nervos e via aquele artista de carne, osso e pescoço no mesmo espaço que eu, cantando, me deslumbrando. Como eram lindos seus dentes, seu sorriso, tudo à sua volta. Como eu via encantador o mundo daquela gente toda, vivendo aqueles momentos, como eu me via ali, tão abstraída de minha própria vida pois aquela, com certeza, era uma vivência que eu jamais vira ou imaginara. Quando ele cantou “Love me Tander” em homenagem ao Elvis que havia sido assassinado há um mês, eu chorei. Ele também. E fomos todos naquela hora, a platéia inteira junto dele e do morto, um só.
De infância pobre, um ingresso como esses só ganhado mesmo. Também foi assim quando fui ao teatro pela primeira vez. Também eram assim as roupas que eu usava: a maioria delas, ganhava da prima que crescia mais do que eu e tinha até TV em casa. (Um dia ainda vou escrever sobre a experiência de ter visto a Pantera Cor-de- Rosa colorida pela primeira vez!) Maçã eu comia quando ia com minha mãe à cidade - era como ela chamava o centro de Florianópolis - e tinha que escolher entre a verde e a vermelha. Escolha complicada. Eu gostava tanto das duas. Maionese na minha casa, só aos domingos. Sobremesa também. O lanche que eu levava para a escola, era pão feito em casa com o que tivesse. No meu aniversário era legal: eu ganhava dinheiro para comprar no barzinho uma pepsi de garrafa. Dúvida cruel: eu também gostava de mirinda. Acompanhava esse refrigerante uma pipoca e a doce era a minha preferida embora o cheiro da salgada jamais tenha saído de minha memória.
A boneca da vez era a Susi. O sonho de ganhar uma era acalentado a cada Natal. Um dia ela chegou. Fora de uma prima distante, que possuía muitas e não lhe faria falta aquela que a mãe dela, minha madrinha, me deu de tanto que a segurei quando os fomos visitar em Joinville. Filha de costureira, aprendi a fazer roupas lindas para a minha Susi. Vestidos de noiva eram os meus preferidos, com véus longos que eu prendia na cabeça dela com alfinetes surrupiados de minha mãe. E pequenas flores que eu mesma fazia, com minhas mãozinhas magras. Sobrevivi a tantos quereres sem dor e não guardo trauma por não ter tido muitos bens que outras crianças de minha idade tiveram. Nas minhas recordações, há muitas presenças alegres, bem mais do que tristes, podem apostar.
Hoje me vejo mais velha. Meus filhos cresceram num mundo mais fácil para se viver. Sempre tiveram o que lhes pude oferecer – nada muito valioso, nada paupérrimo também e tudo o que lhes dei foi a custa de muito trabalho. Conhecem teatro, freqüentam cinema, nunca lhes faltaram livros – objeto de decoração na estante da minha casa em criança, e raros! A mais velha quis ser bailarina, o do meio aprendeu um pouco de judô, ambos gostaram por um tempo de música e aprenderam a tocar piano e teclado. O mais jovem faz inglês e passa horas diante de um computador “vivendo” um ambiente esquisito, tão diferente do que foi o meu.
Entendo que são felizes no mundo deles e que a tecnologia vem se desenvolvendo para ajudar o homem a ser mais independente, porém sempre me pergunto: o que será dos meus netos neste mundo individualista e frio das telas dos computadores, dos homens mais calculistas, competitivos?
Pulo aqui as fases tantas que foram vividas em 31 anos. Não é plausível para uma crônica listar assuntos tão variados mas, quero lançar um questionamento simples: será que nossos adolescentes e crianças lembrarão 31 anos depois do primeiro show que foram, do que sentiram, do que choraram? Será que lembrarão de algum brinquedo especial nesse lugar de vivências em que tudo quebra em dois dias e onde tudo perde a graça tão depressa? Na era do Enter e do Del, de que recordarão meus netos? Jovem eu escrevia em cadernos minhas primeiras poesias e as tenho até hoje, lutando anos contra baratas, fungos, traças, mudanças. Pobres cadernos furados que guardam minhas palavras e pensamentos. Fedem a tempo, dizem os mais tenros. Cheiram saudade, afirmo com certa meiguice. Hoje ainda registro em papel escrito as maluquices que escrevo. É minha letra, gente! Minha caligrafia faz parte da história da minha vida.
O computador é traiçoeiro. Os vírus matam os textos e as construções de cada ser e, pior: os mais jovens não dão bola. Faz-se outro, compra-se outro, esquece-se. É a vida! Eu discordo. A vida é o que se registra e se guarda para provarmos que existimos, que passamos por aqui. A vida é composta por retratos em papel, por folhas e canetas, por elementos simples que estão sendo deixados de lado em prol do que chamam modernidade. 31 anos depois do Ronie Von e da morte de Elvis, “eu me lembro com saudade o tempo que passou, tempo que passou depressa mas em mim deixou, jovens tardes de domingo, tantas alegrias, velhos tempos, belos dias...”.
É lógico que não posso mais voltar àquela praça. Ali existe hoje um prédio. É óbvio que não vou obstruir o progresso em nome de meu saudosismo. É claro que não pretendo envelhecer numa cadeira de balanço sofrendo pelo que mudou, mas uma coisa quero: que as pessoas valorizem mais o ser do que o ter, que um beijo seja mais importante do que um jogo novo, que um livro seja mais interessante do que um resumo pego na Internet no domingo à noite para a prova de segunda.
Não resumam suas vidas. Cantem mais as boas músicas, pesquisem mais, conheçam a história de seus pais, conversem com os mais velhos, utilizem mais canetas do que CDs, montem álbuns com fotografias - não no orkut – sejam mais gente do que robôs e um dia, espero, nos encontrarmos para lembrar deste tempo, o de agora, em que nossas vidas, através dessa crônica se cruzaram e tocaram seus corações. “A gente vai crescendo, vai crescendo e o tempo passa e nunca esquece a felicidade que encontrou. Eu sempre vou lembrar daquele banco lá da praça...” Por onde andará o Ronie Von? Se alguém souber, comente!

P.S – Esta crônica foi publicada em 2008, logo que o blog nasceu. Publico-a hoje outra vez para que meus novos leitores conheçam.

14 de agosto de 2010

Permanência


(Permanecer: demorar-se; ficar. Continuar a ser, conservar-se. Continuar existindo, perdurar, persistir)

Foi numa noite da primavera de 2002, novembro. 13. O li e fiquei extasiada, tanto que anotei no livro – “como ficar indiferente a um poema assim¿”
Hoje reabro o livro e a mesma sensação de beleza me toma. Quase oito anos se passaram desde a primeira leitura e, é claro, não sou a mesma daquele tempo. Entretanto, algo ficou em mim daquela que fui. Se assim não o fosse, que motivo teria eu para escrever hoje¿
Fica o texto, não para ser interpretado. Como disse Quintana, “o poema já é uma interpretação.”

XII
Vou indo, caudalosa
Recortando de mim
Inúmeras palavras.
Vou indo, recortando
Alguns textos antigos
Onde a faca finíssima
Sublinhava
As legendas políticas
E um punhal incisivo
Apunhalava
Um corpo amolecido
O olho aberto, uma bota
Pontiaguda
entrando no teu peito.
Os meus olhos te olhavam
Como de certo o Cristo
Te olhou, piedade
Compaixão infinita
Ah, meu amigo
Que límpida paixão
Que divina vontade
Fervor feito de lava
Fogo sobre a tua fronte
Tanto amor
E não te deram nada.
Deram-te sim
Ferocidade, grito
E sobre o corpo
Chagas
E mãos enormes, garras
Te levando o rosto
E inúmeras palavras
Tão inúteis na noite.
Diziam que adolescência
Moldou a tua idéia
Que eras como um menino
De encantada imprudência
Loucura caminhares
Na trilha da floresta
Sem luminosa armadura.
Mas eu, poeta, vou indo
Caudalosa
Recortando as palavras
Tão inúteis
E os meus olhos de treva
Vão te olhando
E te guardo no peito
Intenso, aberto
Colado a mim
Homem-Amor
Inteiro permanência
No todo despedaçado
Do poeta.
(Hilda Hilst)

Roseli. 14 de agosto de 2010

11 de agosto de 2010

Saudade





“O próximo instante é feito por mim? Ou se faz sozinho?

(Clarice Lispector)

Nada como parar para refletir em momentos de agonia suprema, neste inverno. Grave ironia! Parar para pensar já é algo inusitado, afinal, pensamos o tempo todo. Em tudo, só não nos damos conta. Lembranças, ideias, inovações do espírito, loucuras da alma, trivialidades estão sempre conosco. Nós é que não damos oportunidades para que venham à luz o tempo inteiro, até porque nosso tempo é sempre uma metade – metade sou gente comum que trabalha, luta, corre e tenta vencer o cansaço. Outra metade, subjetividade, afetos, recordações, vontades não consentidas, mistérios.
E a vida, Senhor dos mundos? “E a vida o que é, diga lá, meu irmão!” Pergunta sem resposta, Gonzaguinha!
Assim também pensar no que se foi nem sempre nos dá respostas. Muito mais indagações, porém é necessário prosseguir. Há caminhos, escolhas, muitas mortes entre elas, mas vamos parar tudo e enfiar a cara no travesseiro, entrar na concha e fingir-se de morto? Não dá. Há muito mais à nossa volta nos chamando a agir do que a estagnar-se. Por mais que estejamos meio mortos por dentro, sempre haverá quem precise do nosso contentamento exterior.
O passado, nossas dores, os amores que se foram, por exemplo, nos constituem, fazem-nos. Amar é tornar-se, ultrapassar-se e saber-se vivo, ainda que este amor tenha ficado na lembrança, numa saudade dolorida, silenciosa e secreta. Quem amou, viveu. Quem perdeu ou deixou perder-se, sofre, mas leva consigo a chama de uma vela acesa – a luz intensa daquilo que experienciou. Somos lembrança constante e isso é vida também!
Guardo a lembrança de um amor bonito e é esse amor que me chama agora à escrita dessas linhas. Foi vivido e vívido, sonhado e realizado, subjetivo e concreto. Fez-se em histórias, mimos, aconchegos. Multiplicou-se em afetos, como flores coloridas num canteiro interior. Houve espinhos também? Sim. Não seria tão perfeito se os empecilhos não surgissem. Se não sabem, disso também é feita a vida – de pedras e de pétalas no caminho.
O meu amor é o que guardo dele com a pureza de minha alma e não posso acusar a vida porque não houve o tal “felizes para sempre”. Vou xingar o destino e desistir do que há por vir? E alguém aí sabe me dizer qual é o futuro e o que ele nos trará? Indagações apenas...
O que me move hoje, talvez seja o frio, este inverno, as recordações e um cansaço natural de pensar em tantas (im) possibilidades. Aliadas à sensibilidade, as palavras chegaram. Sim, elas nos pegam de surpresa às vezes, nos tocam, ferem, rodopiam à nossa volta, pedem passagem e dominam, tanto quanto encantam e acalentam. Hoje sou apenas saudade, essa palavra bonita que dói. Eu não queria pensar nela, nem em nada. Queria apenas adormecer, mas aquela vela acesa está aqui, bem aqui, dentro de mim e eu não consigo parar de olhar para ela, ainda que somente eu a perceba.

Saudade


17 de outubro de 2009

Uma Rosa, com amor.

Uma Rosa, com amor।


Talvez a morte tenha mais segredos
para nos revelar que a vida.’

Fleubert

“Tudo o que sei é que devo morrer em breve; mas o que mais ignoro é essa mesma morte, que não saberei evitar.” Assim escreveu Blaise Pascal. Quintana, o poeta da ternura deixou dito sobre as mil mortes que vivemos, numa frase de um poema canônico: “Da vez primeira em que me assassinaram, perdi o jeito de sorrir que eu tinha...”. E nós, pobres e medíocres escritores de cozinha, que diríamos sobre a morte nossa, essa “indesejada das gentes”¿
Estava aqui pensando sobre as tantas vezes que morremos em vida. A morte nossa vem a cada dia. Quanto mais se vive a vida, mas se avança para ela, afinal. No entanto, morrer assim de repente é comum. Digo morrer um pouco, morrer por dor de dentro. Morremos quando alguém nos ofende. Morremos quando alguém nos trai. Igualmente morremos um bocado quando alguém morre de verdade. Já vi tantos dos meus irem embora sem que sequer me tivesse sido dado o direito de me despedir. Morremos quando um amor se vai, quando um sonho despenca da nuvem, quando uma esperança se dissolve no ar bem na nossa cara feito bola de sabão. Morremos, sim, a cada dor, a cada insatisfação, a cada frustração. E nos diluímos em lágrimas por cada uma dessas mortes até que revivemos, como fênix. Meio sem penas, com as asinhas chamuscadas, capengas, revivemos, respiramos, arregaçamos as mangas, tomamos calmantes e seguimos. Nem sei se em frente, mas por onde se possa caminhar ou navegar, já que é mesmo preciso.
Assim, já morri muitas vezes. Ao ver meu pai num caixão, ao velar amigos e até mesmo, quando criança, ao pensar na morte como coisa certa para a vida – que coisa mais errada isso, meu Deus! – a única certeza que me foi passada foi sobre o fim. E meus começos todos, pensava¿ Sofri a dor da ideia de saber os meus mortos futuros, cadáveres adiados. Chorava, esperneava em vão. Depois vieram de fato as mortes menores. Amigas me trocaram por outras. Casamento se foi. Novos amores bonitos também acabaram e a cada vez que isso tudo ocorreu, morri. Fui assassinada em meus sonhos mais puros e nada há de mais belo num ser assim efêmero do que seus sonhos. Vi-os mutilados, arrebentados, cacos de vidro dispersos no chão. Juntei, colei, tão longe da perfeição. Acho que muito mais colei a mim, pedaço a pedaço, para renascer. E renasci assim, meio morta-viva. Reaprendi a sorrir enquanto no chuveiro, chorava. Agarrei-me no sorriso dos outros, peguei carona na alegria alheia, maquiei minha face e minha alma e saí para dançar. Encontrei a vida e a morte sempre juntas porque são, de fato, amigas inseparáveis.
Vivo hoje a maturidade. Ainda consigo conceber a ideia de sonho. Uns morreram, outros nasceram. Nenhum reviveu mas, os trago comigo nos poemas que escrevo, naquilo que penso quando o mundo já dormiu, no que marquei em minha vida, essa breve passagem.
Marquei lençóis com meus bordados, na juventude. Monogramas que o tempo rasgou. Frisei rostos em papel fotográfico que haverão de amarelar um dia. Teci casaquinhos para os filhos que cresceram e ganharam asas. Costurei cortinas para a casa que também morreu com o amor. Pousei beijos em faces tantas e com tanto carinho, porém alguns ficaram fixos apenas na minha memória que não morre. Tatuei um amor, um sonho, que hoje é saudade. Minha rosa vermelha no pé direito representa hoje todas as flores que também – atitude de gente que quer se fazer eterna – fixei na terra, ainda que ciente de sua efemeridade. “Tudo passa sobre a terra.” É frase literária e certeira. Eu também vou passar, igual ao rio que se perde no mar.
Em algum dia eu também vou morrer, meu corpo se tornará adubo para flores, como no filme e, assim como tive desejos para a minha vida, tenho alguns para este dia.
- Tragam-me flores, muitas. Coloquem sobre meu corpo os poemas que escrevi, ao menos alguns deles. Fotografias em que esteja sorrindo mostrando que embora morta muitas vezes, meu rosto tentou disfarçar e concebeu vida a outros. Chorem tudo o que tiverem que chorar lembrando que eu mesma fui sempre a rainha das lágrimas. Só não sofram além da conta. Para quem em vida tantas vezes foi assassinada, estar a caminho do além não deve ser coisa ruim. E vou em paz! É assim que penso e pronto! Mas uma coisa, deixo dito, não façam: Não me coloquem meias e não cubram meus pés. No meu pé direito há uma flor. A mais importante de todas. Muitos em vida sequer a perceberam, mas no dia de meu velório, deixem minha rosa à mostra. Somente essa flor é essencial. Se quiserem dizer algo, digam um trecho de “O pequeno Príncipe”: “Se você ama uma flor da qual no mundo há um exemplar somente, isto basta para que sejas feliz quando a contemplas.” Essa é minha oração de cabeceira. E que os que ficam não se deixem morrer tão fácil. Amém.

7 de maio de 2009

HISTÓRIA DE MULHER



Nasceu pequenina, miúda, franzina. Comentário na vizinhança: - Leva pra benzer. Esta menina é embruxada...
De nada valiam as reforçadas comidas que a mãe preparava nem mesmo as homeopatias que o pai fazia.
Foi crescendo. Entre outros irmãos, era a mais velha. Ia para a roça, apanhar café, catar mata-pasto, cortar trato para o gado.
Brincar ? Só aos domingos e tinha que voltar antes das cinco.
Aos quinze anos, perdeu o pai. Ficaram seis filhos para ajudar à mãe. E a menina miúda sem corpo de mulher teve que ver seu trabalho dobrar. Agora era questão de sustento. Lavava, passava, fazia bolos, pães e tinha que dar banho nos irmãos menores.
Falava mal! E a mãe dizia : - "Cuidado! , vais te casar e ter ainda uma ninhada como eu tive!
Dezesseis anos.
Aprender costura com a tia mais velha. Profissão.
Dezoito anos.
Casou-se. Estava na hora. Precisava formar família, ter seus filhos.
Decepção. Seu par não era tão perfeito. Continuou lutando, costurando...
Detestava fazer roupas para homem, e pensava: faço os vestidos para fora e, com o dinheiro, pago as calças.
Primeiro filho: homem. Segundo: homem. Terceiro: homem.
Tomou uma calça velha, desmanchou, aprendeu o corte e começou a vestir, sem gastar muito, seus homenzinhos que mais pareciam princepezinhos mesmo vestidos com sobras ou reformas de roupas velhas.
Dificuldades sempre.
Mudou-se na esperança de uma vida melhor. Veio o quarto filho: homem. Parto difícil. Quase se foi.
Sofria. Longe de casa, sua cidade, sua mãe...
Quatro filhos, falta de emprego. Cidadezinha pequena e pobre. Ninguém, pagava costuras.
Sofreu a fome, a miséria, a humilhação mas, ergueu sua cabeça e prosseguiu.
Mudou de cidade, melhorou de vida e veio-lhe mais um filho.
Nasceu menina!
Pequenina, miúda, franzina. - "leva pra benzer. Essa menina é embruxada!
- Princesa embruxada, amada, sonhada!
A vida melhor, enfim, deu um passo à frente. Lutava!
Costurava. Fazia pirulitos, pipocas. Já tinha meninos maiores para ajudar a vender.
Marido bebia, caía na rua, fazia escarcéu e ela, forte, sempre.
Voltaram para a terra natal. Mais um filho: homem novamente. Bola para a frente!
Finalmente foi reconhecida na cidade maior, costureira de mão cheia, freguesas ricas, muito trabalho sempre.
Quarenta anos: mais um filho. Sonho de ter uma outra menina. Gravidez de risco. Tratamentos, vitaminas.
Nasceu menina! Era o sonho realizado. Fim da trajetória mas, era preciso continuar lutando.

O marido adoeceu. Virou enfermeira. Enfermeira, costureira, cozinheira...
Filhos criados, bem encaminhados. Comerciantes, professora, contadora, coronel...
Marido se foi. Sofreu a tristeza, o vazio, a depressão. Tratou-se, rezou, venceu!

Nunca fez cursos profissionalizantes. Estudou até a Quarta série primária, esqueceu seus sonhos de menina, não ganhou a boneca de porcelana, driblou mil crises, viu a moeda mudar várias vezes, ouviu pelo rádio tantas notícias tristes sobre seu país porém, sempre manteve a honestidade e dignidade pela vida afora.

Tem hoje 16 netos e quatro bisnetos, aos 72 anos.

Conto-lhes esta história porque é verdadeira. Aqueles princepezinhos, todos os vi passar por minha vida e essa mulher maravilha é minha mãe. Dizer que sem ela eu nada seria é quase cair no lugar comum, mas sem seus ensinamentos, meu caráter não teria sido formado e a minha sede de lutas jamais se propagaria. Foi ela quem me ofereceu os primeiros livros, quem me ensinou, entre outras coisas e em meio a tantos afazeres, a ser mulher. Ela é meu exemplo, meu outro eu, sempre presente, o colo que ainda preciso, o espelho em que me vejo para conseguir a cada dia tornar-me melhor.
Na semana do dia das mães, te abraço, minha mãe, como se pudesse ofertar esse carinho a todas a mulheres-mães do mundo com a certeza de que Deus olha por todas, por todas nós.

Roseli Broering, filha, mãe e avó.


24 de abril de 2009

Olá, quer teclar?







Olá, quer teclar?

“A literatura é essencialmente solidão. Escreve-
se em solidão, lê-se em solidão e, apesar de tudo,
o ato de leitura permite uma comunicação
entre dois seres humanos।

Paul Auster.


François Mauriac, provavelmente num momento solitário de escritura deixou dito que “Cada um de nós é um deserto।” A solidão do mundo moderno tem levado milhares de pessoas a procurar modos de domá-la, essa fera invisível e dolorosa. Assim, muita gente tem procurado a Internet para encontrar alguém com quem conversar nas noites ou momentos de insônia da alma. É a palavra escrita enviada a longas ou pequenas distâncias, porém não menos significativas.
Da terra do sol nascente, um escritor deixou grifado que “A solidão é o preço que temos de pagar por termos nascido neste período moderno, tão cheio de liberdade, de independência e do nosso próprio egoísmo.” Questiono-me acerca dessa modernidade, das facilidades desse mundo repleto de opções. A noite, os dias porque não dizer?, estão recheados de modelos de diversão – bares, boates, botecos, danceterias, shoppings e afins.
Se há um universo que favorece o conhecimento das gentes, o que leva certas pessoas a procurar no recanto de seus lares, através da tela e das teclas de um computador, a companhia desejada ou sonhada? Seria o medo de tentar, de arriscar? Não sei, mas há algo estranho no ar. Estranho e mágico, vamos ler?
Já conheci muita gente que viveu ou contou histórias sobre relacionamentos que começaram no virtual e tornaram-se reais com direito a felicidades plenas. Já ouvi também muitas outras narrações de gente que entrou pelo cano com patifes que se faziam passar por outra pessoa via rede. A conhecida de uma amiga minha foi conhecer o espanhol por quem se apaixonara via tela e voltou com uma aliança de 30gm de ouro no dedo da mão direita. Largou o namorado enrolão no Brasil, o emprego na universidade, deixou uma banana para o ex-marido, pegou as filhas e está vivendo em uma rica mansão em Madrid – e feliz! Outra teclou numa noite de insônia aquele que dizia ter sonhado anos a fio com um par de olhos negros. Conheceram-se pessoalmente numa noite de junho, na Ilha de SC. Passaram horas conversando, beijaram-se, namoraram, noivaram e estão casados até hoje. Ele jurou a ela que encontrara finalmente o par de olhos há tanto buscado.
E assim, na vida real se vai ouvindo tantas histórias de gente que jamais se conheceria se não fosse o advento Internet. Mundo distantes que se encontram, teclas que se unem, telas que se beijam, mãos virtuais que se tocam e sentem, sentem de verdade. Nesse mundo considerado estranho por muitos, atrás de cada computador há , de fato, um ser real, que, como tal, lógico, pode estar ali para o bem e para o mal. Há um provérbio que diz que “Estar em correspondência com um ausente equivale a encurtar metade da distância que dele nos separa.”
Nunca as distâncias se tornaram tão presentes, no entanto também (e sobretudo) nunca as ausências foram tão encurtadas, jamais as pessoas buscaram tanto pelo desconhecido que quer fazer-se conhecer com seus mistérios e delícias como nesse mundo da modernidade. Será a solidão?
A busca do “famoso” par perfeito prossegue. Há sites e mais sites de relacionamentos prometendo que ali se encontrará a metade da laranja, a outra face, a completude. Neles se pode ver o perfil do (a) candidato (a) a ser o dono ou dona do seu coração. Das frases de chamada mais engraçadas às mais sérias, das fotos mais sensuais ou ocasionais ou mesmo os sem rosto, um fato se percebe claramente: a busca incessante pela felicidade a dois, pelo carinho que qualquer ser humano precisa, pelo afeto que as palavras podem trazer junto ao alívio a corações que já buscaram tanto no mundo real e, talvez até por pura timidez, não encontraram. No despertar da curiosidade, ali, diante da tela, escrevem e soltam seus sentimentos. E Lêem o que vem do outro a compartilham o que o outro tem para dar. Nesse jogo interessante, mentiras ou verdades? Pouco importa.
Nunca os seres humanos tiveram tantas oportunidades de se expressar como agora. É a tecnologia a serviço do amor, quer seja ele virtual ou torne-se real, mas sobretudo a serviço da palavra e ela não foi feita para dividir ninguém. Aqui, na Internet, mais do que nunca “palavra é uma ponte onde o amor, vai e vem.”
E por falar nisso, com licença. Também eu estou à procura do meu par perfeito. Estou ou estava? Bom, acho que encontrei... Ah, palavra bendita, santo computador. Amém.



30 de março de 2009

AO ÓCIO E AO ÓDIO, OBRIGADA.




"Nunca devemos ser duros demais quando queremos que o coração do outro se abra."
Há certas horas tão lentas, tão tristes, em que me pego a refletir sobre palavras, expressões e seu peso ou a leveza delas quando chegam aos nossos olhos ou ouvidos. Por não ser mais leitora desavisada e por acreditar que nenhuma leitura é inocente, quis hoje escrever sobre algumas palavras. Palavras que, com seu peso ou a leveza de uma bolha de sabão, podem nos render lágrimas ou sorrisos fartos. Prefiro ainda os sorrisos, ou melhor, os frutos que elas, as palavras, árvores que são, podem render. Para o bem, é claro!
Vamos a algumas delas, caro leitor – caros leitores – se preferirem. Escolhi as que começam com a letra “O” porque com essa letra começa a palavra OBRIGADA.
OBRIGADA a Deus porque algum dia quis estudar LETRAS e, por isso, mudei minha vida, segui um caminho e tenho uma profissão, uma OBRA – resultado de uma ação - um trabalho, ou vários. Profissão não OCIOSIDADE – que também começa com “O” mas significa o contrário, desocupação.
Com “O” também temos a palavra OGRO. Muito em moda na juventude atual, significa Bicho-papão. Façam-me rir! Temos a versão feminina, OGRA. Homem ou mulher, diz-se do Bicho-papão também ser um ser fantástico, ou seja, que não existe de fato. Isso me lembra anônimos, gente que não se mostra, que não assina, que não assume. Há tanta gente assim OFENSIVA que ataca, que agride. Há também gente OCA. Vazia e tão insignificante que necessita se OCULTAR, pois é no esconderijo da alma que reside seu maior ideal.
O ÓDIO, esse sentimento repugnante, essa aversão geradora de energias negativas, sempre se volta contra quem o sente. Nesse ínterim, prefiro o amor que me traz OBJETIVOS mais interessantes na linha da emoção na qual vibro, pela alegria de estar viva e feliz e a qual compartilho com os que amo e que me amam: filhos, amigos... Amar é uma OBLAÇÃO, essa dádiva!
Tudo depende do OLHAR, de como se olha, do ponto em que se olha. Olhar é contemplar, admirar, examinar, estudar. OLHAR é parar para OBSERVAR aquilo que em nós produz satisfação, não tédio, não desdém, nem desafetos. OLHAR é também cuidar e a gente cuida de quem ama, com ORGULHO, mão no peito que vibra pela vitória do OUTRO que nunca é o mesmo, que é diferente, que é o teu semelhante e tem tudo para ser maior e melhor do que a gente mesmo. É nisso que eu acredito.
Todos já ouvimos falar que “a palavra é prata e o silêncio é OURO”. E é diante disso que páro meu texto. Lanço o meu OLHAR de carinho ao meu semelhante pronta para OFERECER toda a minha compreensão. Não somos capazes de prever o futuro pois ele está OCULTO. Misterioso, sobrenatural, é um OCEANO de surpresas pelas quais devemos aguardar, jamais julgar. Feliz de quem não está preso ao ÓCIO, ÓBITO dos sonhos. Felizes daqueles que acreditam na OBRA e seguem seu caminho em paz!
Roseli Broering

22 de março de 2009

Oportunidades



Oportunidades.

Tudo aconteceu quando eu estava lendo no computador, essa máquina maravilhosa e maldita, para os planejamentos da minha semana. Planejar os sete dias vindouros pode significar muitas coisas: as aulas, um possível encontro com alguém de quem eu goste, um novo emprego, o que vai sobrar de tempo para relaxar, ler ou até ir à praia. Planejar é um verbo bonito, mas que na prática, nem sempre funciona. O ser humano é assim, vive fazendo planos e muitas vezes não se dá conta que na grande maioria das vezes, quem age mesmo é o acaso, que se chama destino também ou sei lá o quê, só que vem de repente e surpreende-nos. Comigo é assim. E foi também assim que me veio a idéia de uma nova crônica. Não que falasse sobre planos, mas sobre as almas e os corpos que, sem planejar, se encontram e desencontram na vida.
Estava nessa quando li a frase de Victor Hugo: “A vida não passa de uma oportunidade de encontro; só depois da morte se dá a junção; os corpos apenas têm o abraço, as almas têm o enlace.” As almas têm o enlace. É isso. E pronto. Ou há ou não há. Enlace é palavra mais bela que encontro. Corpos se encontram a qualquer hora, em qualquer lugar, em nome do que se diz prazer, sexo, aventura, uma noite a mais. Pode ser de dia também, nas tardes furtivas durante o trabalho, na hora do cafezinho, nos almoços – sobras dos dias agitados - quando então, corpos se encontram e gozam a plenitude falseada de serem apenas corpos – carne, osso e pescoço.
Falo dessas diferenças e da importância que vejo nas almas porque me vem a idéia de que o amor , esse sentimento belo e traiçoeiro, está aí a nos pregar peças todos os dias. Penso em quantas vezes já ouvi pessoas dizendo que não necessitam ser amadas para serem felizes, que o sentimento que trazem no peito é suficiente para os dois. Ledo engano. Ninguém é completamente feliz amando sozinho. O amor – ao contrário do que se imagina - é fardo pesado para se carregar, por isso tem que ser sentido pelos dois, pois assim será dividido e, ao mesmo tempo, somado para se multiplicar em atos de afeto, ternura, aconchego, completude. Se um não ama, adeus relacionamento. E não vale a pena tentar, antes que me perguntem.
Podem me chamar de louca mais uma vez, diferença alguma irá fazer. Sempre se pensa que temos que tentar. Quem quiser, que o faça. Eu, entretanto já percebi e quero que meu leitor reflita sobre: amar sozinho é entregar o corpo a outro corpo em cujas almas não acontece o mesmo encantamento. Sem esse enlace, esses corpos não ficarão muito tempo aninhados. São como pássaros cujas asas são o que chamo de alma. Não são necessárias as asas para o voo mais pleno¿ Boas asas, leves, funcionais¿ Então! Pássaros que voam juntos têm cada qual suas asas, não as juntam, voam lado a lado porque querem assim fazer, e podem ser felizes porque estão juntos, compartilhando o mesmo azul, sobretudo não é possível que se voe alto e firme com as asas emprestadas.
Assim eu vejo – com tristeza - o sentimento de quem ama só e acha que tem amor o suficiente para os dois. Pássaro com asas multicores que cisma em carregar o outro. Um dia, este descobre que há um pouco mais de azul lá do outro lado e voa só. Voa só e reconhece outros universos. Voa só e se encontra e se descobre apto para voar sem o empréstimo de nada e de ninguém, às vezes voa só e logo acha outro pássaro com plumagens diferentes, por quem se toma de ternura e sai em busca de outros ares. Não havia enlace.
Muitos casais ficam juntos porque um ama demais e o outro, por pena, conforto, bons sentimentos, desejo até – e por que não¿ - fica ali com as asas guardadas, quando não mutiladas por vontade. Até que um dia a nossa metade se vai, porque quase nada nessa vida fica. Sobra o outro de corpo e alma, sofrido, esmagado diante das verdades que as vivências proporcionam. Pássaro que levou pedrada, bem nas asas, ficou sem alma e até que essa se reconstitua, leva tempo.
Se percebes que teu amor é uma via única, foge. Não adianta tentar acreditar na mentira que foi construída pelo sentimento pleno que te domina e que é belo, claro que é, e verdadeiro, lógico que sim, mas solitário. Foge, ainda que com dor, para que o sofrimento não seja mais forte ainda com o tempo. Esquece os planos – um dia ele (ou ela) vai me amar. Eu vou continuar lutando, sou forte e tal. Esquece. Deixa de lado e vai voar em outra direção. Pode ser que eu esteja enganada, não nego, mas sejamos práticos: abre a porta dessa gaiola para o teu bem e do outro também porque por mais que os corpos se entendam, se não houver o enlace, que vem somente da alma, nada se completará e ninguém quer viver uma vida toda fazendo planos só, não é¿
Essa porta aberta será tua esperança. Se o pássaro voltar, era teu e no amor, só valem mesmo todas as penas quando há esse enlace. Bons voos daqui para a frente até porque quem anda para trás é caranguejo! E, afinal, como escreveu Blaise Pascal, “De que serve ao homem conquistar o mundo inteiro se perder a alma ?”

Boa semana.

Roseli Broering

16 de março de 2009

A tentação das tentações!


É assim. De repente acontece. Você está diante do computador porque precisa digitar mil provas e resumos ou escrever as resenhas que lhe pediram, ou apenas para pesquisar no WWW.citador.pt , uma frase legal para ser a epígrafe do teu trabalho já pronto e, durante, no meio disso tudo, você abre a página inicial de seu provedor e vem aquela avalanche de informações. Você sabe que não pode. Não é hora de perder o foco nem de saber do BBB ou da nova novela das seis, mas aquele acidente na Avenida Paulista foi mesmo feio. Eram quantos... quinzes carros? E aquela menininha de onze anos que engravidou do padrasto, sofreu um aborto legal e teve que ser internada numa clínica psicológica para reaprender a viver, enquanto seus médicos estavam sendo excomungados pelo Papa. Horrores do dia-a-dia, ingestão de medo e insegurança aliados, talvez, à falta de tempo que virou, arbitrariamente, moda do dito mundo moderno.
E você que está ali, e que, inocentemente ou não, faz parte desse universo abre sua caixa postal e dá de cara com um e-mail que diz: parabéns, hoje é o dia do consumidor! Seu queixo cai, sua boca se abre, você quer soltar um berro daqueles bem escandalosos porque era mesmo só o que faltava. Todos os dias, você pensa, já são dias do consumidor. Das necessidades às superficialidades, consumimos sempre. É como nascer filho, sempre se é de alguém. Consumidores somos de tudo, o tempo todo e, numa época como essa, em que temos visto salários reduzidos, demissões em massa, crise para todo o lado, vamos aceitar essas felicitações? Ora, me poupem!!!!
Ah, que bom seria ser hipócrita nesse momento e sair por aí com um belo cartão de crédito consumindo. Sapatos, rasteirinhas, bolsas, vestidinhos adoráveis, a nova moda outono-inverno com todas as suas tendências em cores e sabores, aquele colar maravilhoso de bolas com os brincos, livros e mais livros de comunicação e poesia, um carro zero com aquele cheirinho delicioso, ah, que delícia consumir e ainda, de quebra, depois, ir num restaurante bem legal e comer aquela comidinha só para não ter que lavar a louça depois de chegar em casa cansada de tantas compras. É uma malhação séria sair por aí gastando. Hummmmm, seria bom, certo?
Pois são em momentos como estes que temos que parar e analisar todo o lixo que nos é lançado por onde quer que passemos. Nos jornais, na TV, na rua através de homens-propaganda, nos cartazes de promoções, nos outdoors, na internet onde havíamos entrado só para pesquisar uma citaçãozinha para iniciar aquele artigo. A vida está perigosa. Em momentos de crise, melhor dobrar a concentração e o trabalho e gastar menos para ver o depois como é que vai ficar. No entanto, infelizmente, a grande maioria da população não pensa assim e aceita os parabéns por mais este dia, o mais comercial de todos, enfim. E sai gastando os fundilhos para ficar devendo ao banco até as cuecas que usa.
É nessas horas que eu penso o porque de ensinar às pessoas desde pequenas a importância da leitura. Quando se lê muito, quando se lê de verdade, logo sacamos o que é bom e o que não presta, sabemos separar o “joio do trigo” (para usar aqui uma sabedoria a mais,) e não caímos em certas ciladas, ou melhor, tentações. Desde o conhecimento de gibis, revistas, jornais aos livros mais importantes de nossas vidas, a leitura sim é que nos salva, pois além de nos proporcionar o poder de viajar a mundos que nem conhecemos sem sair do lugar – e portanto sem gastar nada – ainda nos faz tornarmo-nos seres melhores perante a terra que habitamos. Que mais alguém pode querer além de um universo interior rico? Vamos pensar nisso e não permitir que nos dominem. “A vida é vasta, ter é tardar”, já disse Fernando Pessoa. Tenhamos, vida e sabedoria, pero “sin perder la ternura (e La cabeza) jamas”.

14 de março de 2009

Mulheres possíveis



O texto que vai a seguir, não é meu. No entanto, gostaria que fosse porque diz muito sobre nós, mulheres, esses seres estranhos, incompreensíveis, adoráveis...

MULHERES POSSÍVEIS

‘Eu não sirvo de exemplo para nada, mas, se você quer saber se isso é possível, me ofereço como piloto de testes.
Sou a Miss Imperfeita, muito prazer.
Uma imperfeita que faz tudo o que precisa fazer, como boa profissional, mãe e mulher que também sou: trabalho todos os dias, ganho minha grana, vou ao supermercado três vezes por semana, decido o cardápio das refeições, levo os filhos no colégio e busco, almoço com eles, estudo com eles, telefono para minha mãe todas as noites, procuro minhas amigas, namoro, viajo, vou ao cinema, pago minhas contas, respondo a toneladas de e-mails, faço revisões no dentista, mamografia, caminho meia hora diariamente, compro flores para casa, providencio os consertos domésticos, participo de eventos e reuniões ligados à minha profissão e ainda faço escova toda semana - e as unhas!
E, entre uma coisa e outra, leio livros.
Portanto, sou ocupada, mas não uma workaholic.
Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coisinhas que operam milagres.
Primeiro: a dizer NÃO.
Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO.
Culpa por nada, aliás.
Existe a Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero.
Pois inclua na sua lista a Culpa Zero.
Quando você nasceu, nenhum profeta adentrou a sala da maternidade e lhe apontou o dedo dizendo que a partir daquele momento você seria modelo para os outros.
Seu pai e sua mãe, acredite, não tiveram essa expectativa: tudo o que desejaram é que você não chorasse muito durante as madrugadas e mamasse direitinho.
Você não é Nossa Senhora.
Você é, humildemente, uma mulher.
E, se não aprender a delegar, a priorizar e a se divertir, bye-bye vida interessante.
Porque vida interessante não é ter a agenda lotada, não é ser sempre politicamente correta, não é topar qualquer projeto por dinheiro, não é atender a todos e criar para si a falsa impressão de ser indispensável.
É ter tempo.
Tempo para fazer nada.
Tempo para fazer tudo.
Tempo para dançar sozinha na sala.
Tempo para bisbilhotar uma loja de discos.
Tempo para sumir dois dias com seu amor.
Três dias.
Cinco dias!
Tempo para uma massagem.
Tempo para ver a novela.
Tempo para receber aquela sua amiga que é consultora de produtos de beleza.
Tempo para fazer um trabalho voluntário.
Tempo para procurar um abajur novo para seu quarto.
Tempo para conhecer outras pessoas.
Voltar a estudar.
Para engravidar.
Tempo para escrever um livro que você nem sabe se um dia será editado.
Tempo, principalmente, para descobrir que você pode ser perfeitamente organizada e profissional sem deixar de existir.
Porque nossa existência não é contabilizada por um relógio de ponto ou pela quantidade de memorandos virtuais que atolam nossa caixa postal.
Existir, a que será que se destina?
Destina-se a ter o tempo a favor, e não contra.
A mulher moderna anda muito antiga. Acredita que, se não for super, se não for mega, se não for uma executiva ISO 9000, não será bem avaliada.
Está tentando provar não-sei-o-quê para não-sei-quem.
Precisa respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar cada pedacinho de si.
Se o trabalho é um pedação de sua vida, ótimo!
Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que ser independente.
Mulher que se sustenta fica muito mais sexy e muito mais livre para ir e vir.
Desde que lembre de separar alguns bons momentos da semana para usufruir essa independência, senão é escravidão, a mesma que nos mantinha trancafiadas em casa, espiando a vida pela janela.
Desacelerar tem um custo.
Talvez seja preciso esquecer a bolsa Prada, o hotel decorado pelo Philippe Starck e o batom da M.A.C.
Mas, se você precisa vender a alma ao diabo para ter tudo isso, francamente, está precisando rever seus valores.
E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha rústica à beira-mar e o rosto lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem ser prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova perspectiva sobre o que é, afinal, uma vida interessante’.

Martha Medeiros é uma jornalista e escritora brasileira. É colunista do jornal Zero Hora de Porto Alegre, e de O Globo, do Rio de Janeiro.

22 de dezembro de 2008

De tudo o que restou, muito mais me falta.

De tudo o que restou, muito mais me falta.

(Roseli Broering)

Eu não sei exatamente há quantos anos, mas penso que uns 29 ou 30. Nesse passado esquecido por números de mim, casou-se um de meus irmãos. Era um sábado frio e de fortes ventos. Lembro-me que, com muita dificuldade financeira, fomos, eu e minha mãe, ao salão de beleza. Meus cabelos eram compridos e foram, pasmem! , desarrumados, desalinhados. Essas sensações que me vêm de repente são mesmo esquisitas. Se fecho meus olhos, vejo-me lá e sinto meus cabelos voando, esticados e pesados, feios. Mas, como admirava a noiva! Era uma miniatura de mulher, batia abaixo de meus ombros e estava iluminada. Meu irmão num terno azul-marinho, esbanjava alegria. Casamento em casa, como foram todos os de nossa família. Os convites traziam: “Após a cerimônia religiosa, os convidados serão recepcionados na residência dos pais da noiva.” Aquilo era lindo de ler. Não havia pompas nem grandes decoradores. A simplicidade era a lei e os sonhos que passavam a pertencem a todas as moças, eram também meus. Um dia também me casaria, teria o meu convite, noivinhos em cima do bolo, um vestido branco e um véu longo com gotinhas de cristal, preso a uma grinalda linda. Muitas damas e pagens igualmente sonhava, alegrias e sorrisos fartos ante a nova vida que estava, em algum lugar, por vir. Tudo isso eu pensava enquanto admirava as alianças de meu irmão e minha cunhada, sua circularidade – o “para sempre” que eu ouvira deles diante do padre.
Naquele tempo já estava registrada em mim a marca da mulher que, em sua costumeira solidão, pensava e refletia, pois esses são verbos de infinitas significações. A vida passa tão depressa, hoje eu sei. Nem me atrevo – para não sofrer talvez – contar aqui o que foi feito de todas as promessas daquele dia proferidas pelos noivos e testemunhadas por nós, por mim também no meu silêncio observador.. os mesmo olhos que se prometeram brilhar na mesma direção para sempre, acenderam-se depois em outros rumos. Promete-se diante da platéia e convida-se para a festa sentimentos e ações que nem sempre se consegue cumprir, essa é a verdade. Como ninguém conhece o futuro, nada se deve prometer, jamais, sob pena de sermos nós, os prometedores, os que mais sofreremos pois a vida está aí para quebrar as regras que nós mesmo criamos para ver os olhos dos que amamos brilharem. Tolas ilusões. O jogo é perigoso e ninguém nos indica quais as armadilhas estão armadas, nem onde. Os amantes embarcam na canoa furada conduzida pela vida – disfarçada motorista de quepe e divisas, com chifres invisíveis.
Também eu, no meu tempo casei-me. Lembro do gosto do bolo. Não houveram noivinhos, era um laço de fitas delicado e bonito, cor-de-rosa. Cortei-o auxiliada pelo homem amado e posso afirmar que aqueles sorrisos que ficaram lacrados no papel fotográfico eram mesmo nossos, e verdadeiros! Foi o bolo mais bonito da minha vida. Porém nem só de confeitos sobrevivem os casamentos ou perpetuam-se os sonhos. Fomos os noivos – as fotografias não mentem – e também tivemos nossas alianças que se perderam ao ficarem, juntas, guardadas no cofre. Estranho: perdeu-se o objeto ao ser guardado com chave e segredo... Promessas, juras, assinaturas, certidões, nada fez com que aquilo que de mais importante havia, permanecesse. Sem o amor, vão-se os sonhos e os objetivos partem-se.
Hoje, mais de 25 anos depois, ainda guardo o vestido, a grinalda amassada, os buquês das damas. Uma colher de pau quebrada, alguns sobreviventes pratos do jogo de jantar porcelanado, travessas que o tempo não consumiu, as fotografias num álbum amarelado. Guardo também a lembrança dos rostos que ali estavam com seus olhares a nos abraçar e que a morte já levou – meu pai, minha avó, alguns tios – silêncios presentes para sempre. Também mutilo a cada dia o que sobrou de nós, que estamos vivos hipocritamente a agradecer ao que sobrou. De tudo o que restou, muito mais me falta: os abraços que deixamos de trocar, as promessas não cumpridas, as ofensas vividas e caladas, as certezas mentirosas de que tudo algum dia podia melhorar. De tudo o que restou, muito mais é nada, nada. São rugas e cabelos brancos, amarguras e mágoas tantas que papéis e canetas jamais serão suficientes para que o registro acabe. Ficaram as sensações e elas são minhas. Outras vezes, em vão, tentei amar nem que fosse só pelo amor em si, sentimento tão completo, tão uno e complexo que movimenta nervos, sangue e as próprias palpitações de nossa vida. Também não obtive sucesso. Mais mágoas vieram, outras separações e a indescritível sensação horrível de ter tentado de novo e errado outra vez!
Não ouso mais perguntar a ninguém a porção de dor que poderia ser dividida comigo. Dores que se tenta partir, são somadas, isso sim, quanto mais mexemos nelas, mais nos sangram. Atira um torrão de terra, leitor, na água aparentemente límpida com lodo no fundo para ver o que acontece... Meu irmão, minha cunhada, eu e meus amores somos águas paradas. Deixai-nos quietos. O lodo de minha solidão merece ficar em seu lugar, estagnado. No fundo. Na superfície, quero ser água mansa, límpida, talvez para ser nova a cada dia.
Sempre que ouvir tocar a “Ave Maria” em latim, vou chorar e, paradoxalmente, esse choro bonito e emocionado é meu mais cruel pesadelo real, pois vive lá dentro, onde a solidão faz morada e, nessa casa, dessa moradia, só quem conhece os recantos sou eu.

Até o ano que vem!

25 de novembro de 2008

“A grande dor das coisas que passaram”

Escrever em momentos em que sentimos dor pode ser uma grande fonte catártica. Em outras palavras, pode ser “soltar os bichos”, mandar para fora o que é ruim, expulsar demônios ou, uma simples necessidade.
É assim para quem tem dentro de si a inquilina de todos os intervalos: a palavra. Escrever para lembrar ou para esquecer, pouco importa. Creio que se assim não fosse, não existiria a literatura, não haveríamos de ter os imortais que nos livros deixaram seus sentimentos ou maiores ficções compondo a história de tantos seres de papel com os quais contracenamos por aí, nas leituras.
Quando um relacionamento termina, por exemplo, escreve-se. Dos poemas mais ultrapassados às cartas que jamais chegam ao destinatário. Nos guardanapos daquele restaurante em que íamos juntos ou na areia da praia, na janela embaçada dos dias de chuva que não cessam porque a alma está chorando. Com a chegada da Internet, os e-mails servem para dar vazão à palavras de saudade, de consolo, força, às vezes até de raiva. Nos orkuts, vê-se o perfil através da frase escolhida para o dia ou no ícone “relacionamento”. As fotografias do casal desaparecem em questão de um clik e ,dessa forma, mostra-se a uma boa parte do mundo, publicamente, que aqueles dois que até ontem se amavam e expunham as mais belas cenas, separaram-se. O amor acabou.
Um álbum de fotografias, quer seja real ou virtual, é composto somente de momentos bons. É por isso que choramos diante das imagens ali lacradas. Beijos, abraços, sorrisos, desprendimento, caretas bem humoradas, tudo estava ali guardado. Como o próprio nome diz, um álbum de r e c o r d a ç õ e s. É isso: serve para que recordemos aquilo que não poderá ser mais vivido. Uma fotografia é a prova de que existimos, de que fomos alguém por algum tempo. Nos namoros ou casamentos – e aqui não vejo mais diferença – duas pessoas foram ou trocaram uma mesma vida por um período e quando acaba é que sentimos, como disse Camões “a grande dor das coisas que passaram.” Ninguém fotografa momentos ruins. Ninguém coloca a câmera no timer automático para retratar a raiva que perpassa as pessoas na hora do desentendimento. Não fotografamos separações, lágrimas, corações acelerados, medos, arrependimentos, perda de sono, perda de ânimo – o mesmo que perder um pedacinho da alma.
Ocorre que um relacionamento para sobreviver necessita dos bons e maus instantes, pois deles é constituído. Uma hora ruim aqui é substituída por outras boas ali e assim se vai construindo uma história entre dois seres que mantém muitos sentimentos em comum, que sorriem bastante para o mundo o que choram juntos por ele, que sonham um futuro no qual nem podem apostar – pois até que provem o contrário, nem mesmo o presente existe. Tudo é apenas passado. Pronto. Ou ponto. Mas disso tudo é feita uma vida que, num momento ou noutro, por um motivo terrível ou até sem motivo algum, pode acabar. De repente, ele quer badalar mais, ela quer mais tranqüilidade, ela vai viajar para Portugal para um curso de férias, ele ainda não acabou a faculdade e nessa hora, por um motivo às vezes até banal, acaba. E é para sempre.
Ficaram as fotografias e alguém precisa cuidar delas e olhá-las para não mofarem na gaveta do esquecimento. No começo, são mais vistas (ou choradas) . Com o tempo, até esquecidas, quem sabe, ficarão. Um álbum de fotografias é um documento do luto que precisa também ser experienciado. O fim de um relacionamento é uma morte e como tal requer seu tempo de choro, de sangramento, de adaptações até que a vida mesmo, essa que um dia os aproximou e noutro os separou possa agir de sua forma – desconhecida por nós, mortais – e preparar para essas pessoas outras surpresas, afinal, no quesito amor, todos os seres são iguais.
Cuidemos de nossas fotografias e também de nossas memórias. Elas contarão a história num outro tempo não mais nosso. Podemos até deletar nosso ex-amor do orkut, MSN, fotolog, endereço eletrônico ou sermos apagados ou bloqueados por ele. Podemos nos mudar para a Argentina ou ir chorar no convento de Angelina, podemos tudo o que quisermos. O que não nos é de direito é crer que o mundo acabou e brincar com a saúde, por exemplo. Precisamos voltar a viver, tornarmo-nos outra vez amplos, leves, livres como fomos enviados a este mundo para, então, quem sabe até, encontrarmos uma outra pessoa e começar uma nova história que, como as águas de um rio que não passam duas vezes por baixo da ponte, estejamos e sejamos seres sempre em movimento, prontos e dispostos à renovação.


Roseli Broering

10 de setembro de 2008

E a vida?

Pensar sobre um assunto polêmico já me causa conflitos individuais e intimistas. Assim acontece quando me vem à mente questões como o aborto. Mas, enquanto profissional dos textos, preciso ousar de quando em vez para provocar àqueles que decidirão (?) o futuro da humanidade quando eu já tiver virado adubo para flores.
Assunto polêmico mesmo? Polêmico desde que o mundo é mundo porque o ABORTO se faz desde que o mundo nasceu. Chazinhos, jeitinhos, temperinho nunca faltaram às mulheres – sempre grande conhecedoras da vida – para retirar de si aquela “coisinha inconveniente” que está crescendo na sua barriga.
Os tempos mudaram, as mulheres evoluíram, a Igreja toma, retoma e até cobra posições e ninguém chega a nenhum consenso que possa dar alento às milhares de discussões que são feitas sobre o assunto e aos milhões de reais que são gastos com elas – sim porque para tudo há um custo e , aqui, leia-se que para os abortos mal feitos também há.
No fim das contas quem arca com as despesas é a sociedade. Gente que paga seus impostos em dia, ajuda a bancar a clandestinidade mal feita e mal resolvida. Gente de bem que é a favor da vida, paga a conta do hospital da “coitada” que engravidou sem querer – e de um “coitadinho” que não sabia que ambos podem (e devem!) prevenir – se. Quem comete o ato de abortar, na maioria das vezes se vê em situação de risco.
Se o aborto não dá certo, o governo paga a conta e, de quebra, nós ajudamos com o suor de nossos rostos – do hospital que vai corrigir o erro dos profissionais açougueiros, dos psicólogos que cuidarão das cabecinhas de vento poluídas de remorsos no futuro, dos problemas de saúde que podem vir após o ato. Sim, há os que os defendem piamente com colocações do tipo “Eu tenho o direito de retirar um amontoado de células fracamente ligados que, talvez, apenas talvez, possam “vir a ser” (o que significa que NÃO É) um ser humano.”
Mulheres e suas bruxarias... também desde que o mundo é mundo, desde que a vida é pensada e discutida, vivenciada, experimentada e sentida há as que nasceram para tornarem-se mães e, para essas, o crescimento desse montão de células representa o sagrado. Um filho, a continuidade, e perpetuação da história. A cada uma cabe decidir.
Independente de crenças, que se dê mais valor à vida, à nossa da qual conhecemos todas as dores e amores, mas também a de quem não pode ainda opinar. Filhos de fim de festa, de cachaçada, de lapsos são tão filhos quanto os do amor e da programação de felicidade completa. O amontoado de células já pulsa há menos de um mês de gravidez – feito uma pequenina pulga pulante. Ali está uma vida e talvez esse conceito até pobre, baste!

1 de agosto de 2008

Morre mais quem fica.


Difícil começar uma crônica para falar da morte quando a matéria desse tipo de texto deveria ser a vida, somente a vida com suas surpresas boas e não com a estupidez (aparente ?) que nos pode levar à loucura se nos propusermos pensar nelas.
Há tantas músicas que falam sobre os que vão embora cedo. Legião Urbana tão bem cantou e encantou levando às lágrimas tantos viventes . Sim, digo viventes pois até que nos provem o contrário, os que morreram não choram. Na verdade, morre mais quem fica do que quem vai. Viram anjos, como na música “vai com os anjos, vai em paz...”
Uma vez assisti a uma entrevista com Tonia Carrero em que ela dizia que o ruim de viver muito é ver tanta gente querida partir e ter a sensação de que se vai ficar sozinha. Compartilhei com ela, naquela hora, algumas perdas. Meu pai (faz hoje exatos dezessete anos que ele se foi) , minha avó materna, meus avós paternos que nem conheci, alguns bons amigos, parentes, tios e tias queridas, até crianças ajudei a velar.
Tenho visto alunos, ex-alunos, jovens irem embora. É cedo. E como dói. A tecnologia expande a dor. Os orkuts ficam repletos de recados, de gente jovem também que sofre a partida dos seres queridos que tinham ainda uma vida toda para viver. Tinham? Se tivessem estariam aqui ainda e aqui é bom parar a discussão para que não cheguemos à questões religiosas.
Namoradas, namorados que fizeram juras eternas, mães, irmãos, família que ficou sem explicação, quase sempre sem direito à despedida, a um último sorriso que fosse, todos manifestam-se ali, como se no céu ou em qualquer lugar que haja do outro lado, em cima ou embaixo, houvesse uma página em que os mortos pudessem receber os recados. Sei lá se podem. Sobre isso, de verdade, pouco sei ou imagino. Mas, é fato que morre mesmo é quem fica, eu repito.
Ainda ontem mais um se foi. No Orkut, ele deixara recado para a namorada: “te darei toda a minha vida.” E deu. Sua vida durou dezenove anos. Sua vida foi dela desde o dia em que se apaixonaram. Ele será jovem para sempre. Ela morreu muito mais, no enterro, na saudade que ficou e ficará por muito tempo. Sim, ele marcou sua vida para sempre.
Um acidente de carro, ele, a namorada e a mãe. A mãe em coma, a namorada machucada, ele morreu. Morrerá muito mais a mãe quando souber. Quando acordar desejará que tudo tenha sido um pesadelo. Lágrimas e mais lágrimas derramar-se-ão. Mas desse sonho ruim, ela não acordará.
Quanto a nós, que poderemos fazer? Choramos na morte pelos que ficaram, não por quem se foi. Choramos a dor de quem vimos sofrer, choramos uma saudade antecipada que sabemos irá chegar, essa saudade para a qual não há remédio como irremediável é também a própria morte. Por isso, morre mais quem fica do que quem vai ainda que o destino seja o paraíso, a terra prometida, azul sem fim...
Quantos desejaram dizer hoje para ele aquilo que eu também quis dizer ao meu pai ao vê-lo sem vida: “ Lembro das tardes que passamos juntos /Não é sempre mas eu sei/Que você está bem agora/Só que neste mundo/O verão acabou./Cedo demais!”
Parece não ser justo mas, quem somos nós para julgar? Cada um tem a sua hora? Era cedo, tarde, cumpriu ou não sua missão? Nada disso importa agora porque para mim, que tenho visto tantos irem embora, tudo o que me resta é pensar e repetir sempre que morre mesmo é quem fica.
Quantas vezes ainda terei que morrer até que viva para sempre? Afinal de contas, como diz a música, só “os bons morrem antes”. Minha homenagem e reflexão vai hoje para vocês e “tanta gente que se foi, cedo demais, cedo demais.”

10 de julho de 2008

Homenagem às solteiras resolvidas!


O texto de hoje não é meu – quem dera fosse porque a Martha Medeiros é ótima! Mas, ele vai em homenagem à uma aluna especial que anda cuspindo fogo pelas ventas e a quem seu sei, esse texto vai ajudar muito, NE, Manu? Hahaha...


Beijos a todas a resolvidas, fortes, decididas, perfeitas mulheres do século XXI!


"De tudo o que ele me deu, o melhor foi um pé na bunda" Tati Bernardi


Depois de um bom tempo dizendo que eu era a mulher da vida dele, um belo dia eu recebo um e-mail dizendo "olha, não dá mais".Tá certo que a gente tava quase se matando e que o namoro já tinha acabado mesmo, mas não se termina nenhuma história de amor(e eu ainda o amava muito) com um e-mail, não é mesmo?Liguei pra tentar conversar e terminar tudo decentemente e ele respondeu "mas agora eu to comendo um lanche com amigos".Enfim, fiquei pra morrer algumas semanas até que decidi que precisava ser uma mulher melhor para ele.Quem sabe eu ficando mais bonita, mais equilibrada ou mais inteligente, ele não voltava pra mim?Foi assim que me matriculei simultaneamente numa academia de ginástica, num centro budista e em um curso de cinema. Nos meses que se seguiram eu me tornei dos seres mais malhados, calmos, espiritualizados e cinéfilos do planeta.E sabe o que aconteceu? Nada, absolutamente nada, ele continuou não lembrando que eu existia.Aí achei que isso não podia ficar assim, de jeito nenhum, eu precisava ser ainda melhor pra ele, sim, ele tinha que voltar pra mim de qualquer jeito. Decidi ser uma mulher mais feliz, afinal, quando você é feliz com você mesma, você não põe toda a sua felicidade no outro e tudo fica mais leve? Pra isso, larguei de vez a propaganda, que eu não suportava mais, e resolvi me empenhar na carreira de escritora, participei de várioslivros, terminei meu próprio livro, ganhei novas colunas em revistas, quintupliquei o número de leitores do meu site e nada aconteceu. Mas eu sou taurina com ascendente em áries, lua em gêmeos e filha única.Eu não desisto fácil assim de um amor, e então resolvi que eu tinha que ser uma super ultra mulher para ele , só assim ele voltaria pra mim. Foi então que passei 35 dias na Europa, exclusivamente em minha companhia, conhecendo lugares geniais, controlando meu pânico em estar sozinha e longe de casa, me tornando mais culta e vivida. Voltei de viagem e tchân, tchân, tchân, tchân: nem sinal de vida.Comecei um documentário com um grande amigo, aprendi a fazer strip, cortei meu cabelo 145 vezes, aumentei a terapia, li mais uns 30 livros, ajudei os pobres, rezei pra Santo Antonio umas 1.000 vezes, torrei no sol, fiz milhares de cursos de roteiro, astrologia e história, aprendi a nadar, me apaixonei por praia, comprei todas as roupas mais lindas de Paris.Como última cartada para ser a melhor mulher do planeta, eu resolvi ir morar sozinha. Aluguei um apartamento charmoso, decorei tudo brilhantemente, chamei amigos para a inauguração, servi bom vinho e comidinhas feitas, claro, por mim, que também finalmente aprendi a cozinhar. Resultado disso tudo: silêncio absoluto .O tempo passou, eu continuei acordando e indo dormir todos os dias querendo ser mais feliz para ele, mais bonita para ele, mais mulher para ele. Até que algo sensacional aconteceu. Um belo dia eu acordei tão bonita, tão feliz, tão realizada, tão mulher que eu acabei me tornando mulher demais para ele. Ele quem mesmo?

22 de junho de 2008

Das fomes e vontades da vida.

Eu quero, Eu posso, Eu devo. Estava escrito sempre com um jeito bonito, de uma forma diferente no quarto do meu irmão mais velho. Atrás de porta, na cabeceira da cama de cima do beliche, em todos os seus cadernos.
Não sei se algum dia disse que nasci numa casa de muitos irmãos. Éramos em sete, mais pai e mãe. Um tempo difícil. Máquina de lavar? Computador? Sanduicheira? Máquina de fazer pão? Quem dera... Um forno feito de cimento na rua aonde se assavam mais de dez pães, duas vezes por semana para alimentar tantas bocas com fome de vida, de crescimento, mudanças. Sonhos? Nada doces e sem recheio algum. Eram perspectivas apenas e sobre os quais mal se discutia. Não havia tempo. Havia sim é que se trabalhar, ajudar e cada um fazer sua parte, o que incluía os meninos lavando louça, limpando chão sem esse papinho tosco de “vai virar mocinha”. Passados os anos eu diria que nos virávamos em muito menos tempo que os trinta do programa do domingo, por sinal tão chato e batido que nem vale a pena prosseguir.
Domingos bons eram aqueles: de maionese na mesa, carne assada de panela e arroz novo, tudo saindo fumaça para dar ao dia santo a cara familiar. Depois disso vinha a sobremesa que o pai chamava de “coisa boa”. Hoje, só conseguimos horas assim com muita programação – um mora aqui, outro acolá. A esposa de um não pode, a segunda do outro prefere outras coisas, os sobrinhos se dispersam. Ah, essa vida moderna... perdemos de sorrir e de celebrar o estar juntos, coisa a qual nem dávamos muito valor naqueles tempos distantes em horas, presentes aqui, no coração. O que acaba acontecendo? Todos se vêem mesmo é nos velórios . Mas, graças a Deus, acorrem poucos.
Nesses momentos nostálgicos é que me voltam os cadernos e livros do meu irmão e sua tarefa de querer mais da vida. Era assim: O EU bem grande, uma chave com a ponta voltada para ele e o Quero, Posso e Devo dentro dela. Eu, pequenina e magricela, olhava e nada compreendia. Foi minha mãe quem me explicou: “é uma tática dele para conseguir o que quer. Ele quer, então ele pode e, além disso, é seu dever fazê-lo.”
Eu devia ter uns dez anos e era no quarto dele que eu mais gostava de entrar. Estudioso, via seu livros. Neles, os carimbos de bibliotecas. Ele, o meu irmão, além de sabido, queria, podia , devia. A vida lhe ensinou bem cedo que para se conseguir é necessário pensar positivo. Parece chavão, certo? Mais um clichê, dirão meus alunos, porém, como era sério para ele e ainda o é para muitos, inclusive para mim, que aprendi a lição.
Vai longe o tempo das “coisas boas” na mesa e de termos o pai e a mãe ali conosco, todos juntos, pertinho sem que déssemos valor. Eu cresci, tu cresceste, ele cresceu. Nosso pai se foi e a mãe está tão pequenininha que a gente até já acredita que as pessoas encolhem. (ela era tão grandona quando eu era criança...). Meu irmão mais velho é hoje um cinqüentão super-hiper-mega saudável. Continua sabido, ou melhor, é um sábio que sempre tem boas palavras para dizer de um jeito manso, para não ofender. É, na verdade o que sempre foi: um estrategista. Me orgulho dele. Dos outros também, é claro e não posso mentir que também sinto isso com referências a mim.
Vocês podem até pensar que no final tudo dá certo – mentira! - e que essa crônica tem fins de auto-ajuda. Que nada! É so uma reflexão até um pouco boba de uma mulher que, no meio da noite, reflete e recorda. Para dar certo mesmo, tem que se viver dia após dia, cada dor, cada sorriso, cada dúvida, cada queda, cada lágrima. Para dar certo é preciso suportar larvas e se propor a conhecer borboletas, para dar certo é preciso querer, poder, dever e no final ainda sentar e pensar: será que de fato cheguei? Será que de fato sou alguém? É tão fácil as pessoas pensarem a vida como um final de novela em que tudo o que acontecer será bom. Para saber da vida é preciso navegar nela, embarcar nela e estar disposto a jamais descer. Os abismos existem. Isso é verdade mas, para estar aqui há que se pensar também que fizemos por merecer.
É meu desejo que todos compartilhem a delícia de poder e saber viver cada dia. Sem pieguice de dizer” como se fosse o último”. Ninguém pensa nisso num mundo corrido como o nosso. Mas, sem correrias ou com elas, que as pessoas sempre lembrem que somos a história. Sim, nós somos a história. Somente que já passou dos quarenta talvez consiga entender minhas palavras noturnas e se as escrevo agora é porque acredito que um dia todos os meus leitores chegarão à idade mais madura e talvez essas colocações possam servir a mais gente.
Querer, poder e dever. Quero, posso, devo. EU.
E você, vem comigo?